O SOL DE SEGUNDA-FEIRA

A que ponto chegamos. O brasileiro está pedindo empréstimo para ir ao supermercado.

Um retrato do Brasil

Quando os chineses enchem o saco

Cresce a ideia!

Um Natal do peru!

Tá tudo tão caro! É o que mais se ouve no Brasil nos dias de hoje

Bolsonarista xingar uma figura como Gil é o fundo do poço

Ao vivo em em cores!

Quem disse que Papai Noel não existe?

É hoje!

Gisele Bündchen na capa da M, a revista de fim de semana do Le Monde

Na capa da italiana Internazionale, o outro lado da Copa

NOTA 10 para a reportagem retrospectiva sobre Erasmo Carlos no Fantástico, na noite de ontem

O adeus

O vice-presidente eleito Geraldo Alckmin no Le Monde

Um brasileiro desconhecido por aqui, em matéria de página inteira no Le Mondo do fim de semana

 

O SOL DE DOMINGO

Pensando bem, tem sido saudável ao país, o silêncio do presidente da República. Um silêncio quase sepulcral, desde aquele 30 de outubro quando foi derrotado nas urnas e recebeu o aviso prévio para desocupar o imóvel onde mora há quase quatro anos.

Para um cara que só abria a boca para dizer besteiras, nada melhor que ela fechada. Nessas horas, o silêncio é de ouro.

No mundo politico e internacional, esse desaparecimento, esse confinamento do homem que ainda comanda o país, é um vexame. Normalmente, perdedores reconhecem a derrota, parabenizam os vencedores e se colocam à disposição para ajudar o país na transição, na passagem do poder, da faixa.

Mas aqui neste país tropical não aconteceu nada disso. Sua única aparição durou alguns poucos minutos, não mencionou o nome do vencedor, na verdade, não disse coisa com coisa.

Nesse quase um mês de vacância de poder, o Brasil vai caminhando no piloto automático, mil vezes mais competente que o próprio presidente. Além de não aparecer para agradecer a quase metade de todos os votos dos eleitores, ele não deu as caras para lamentar a morte de Gal Costa, de Rolando Boldrin, de Erasmo Carlos, de Fernando Campana, para ele, todos comunistas.

Mas para quem nunca deu as caras para lamentar a morte de quase 700 mil pessoas, vítimas da pandemia, esperar o quê?

O presidente da República vive uma agonia. Dizem que está ruim das pernas, mas ele foi incapaz de fazer um pronunciamento à nação dizendo que entraria em licença para tratamento de saúde. Se está doente, guardou pra si a doença. Como fez o regime militar nos anos 1960, quando o então ditador Arthur da Costa e Silva sofreu um enfarto.

O que resta a Jair Messias Bolsonaro daqui pra frente? Ler, estudar, ele não é chegado. Viajar, conhecer e viver outras culturas, tampouco. Talvez ele organize alguns motoristas  para um percurso tipo selvagem da motocicleta.

Muito acreditam que ele estará na oposição. Será que ele sabe fazer oposição? Do emprego que ganhou no PL, talvez peça demissão logo logo, já que não é chegado ao batente.

Pode ser que não, mas tudo leva a crer que Bolsonaro será o terceiro personagem daquela série infantil Bananas de Pijama.

Ele não torceu pro Irã, que levou de seis a dois da Inglaterra, apesar de estar sempre do lado do mais fraco. Aqui no Brasil, torce pelo América Mineiro. Torcer pelo Irã, que tem reprimido violentamente as mulheres, desde que Mahsa Amini morreu nas mãos da polícia, não! Ele quer que o Irã perca os três primeiros jogos e volte pra casa, pra desgosto dos aiatolás.

Ficou triste ao ver a zebra entrar em campo no jogo entre Argentina e Arábia Saudita. Teve vontade de soltar fogos com o primeiro gol de Messi, mas foi perdendo a graça com a virada.

Ele torce por todos os times da América Latina: Argentina, Uruguai, Costa Rica, México, amou a vitória do Equador por dois a zero em cima do Qatar, país que oprime as mulheres e não respeita os direitos humanos, trabalhistas.

Não torce pelos Estados Unidos porque não gosta dos americanos, que ainda chama de yankees. Não importa se são os democratas ou os republicanos que estão no poder. Quando jovem, não tomava Coca-Cola, não mascava chicletes nem comia batatinhas Pringles, artigos imperialistas.

É um torcedor fanático da República dos Camarões, desde que leu, nos anos 1980, uma reportagem na revista Actuel, que dizia que os jogadores, com pouco dinheiro no bolso, iam de coletivo pros treinos, levando a própria chuteira dentro de uma sacola de pano.

Ele torce para a Alemanha só porque é apaixonado por Berlim, mesmo depois daquele sete a um. Nos anos 1970, ele torcia para a RDA, a República Democrática Alemã, a Alemanha Oriental, comunista.

Não faz a menor questão de torcer para times sem graça, tipo Suiça, Canadá e Austrália.

Sempre torce pra França, morou lá uma década exilado e guarda um carinho pelo país. Sabe que o Brasil já foi eliminado duas vezes pelos franceses, mas não sabe torcer contra. É o seu segundo país.

Holanda, ele ama, desde aquele escrete que todos chamavam de laranja mecânica.

Ama também o colorido dos uniformes de  quase todos os africanos. E a alegria deles na hora de um gol, às vezes raro.

Portugal ele sempre torce a favor, desde aquele 25 de Abril, desde a Revolução dos cravos. Espanha também, desde a morte de Francisco Franco.

Sente saudade da seleção do Peru, ainda mais quando Didi era o técnico. Sempre lembra também da exótica Coréia do Norte que, diz a lenda, colocou o técnico no paredão depois da eliminação.

Gostaria de ver em campo a Samoa Americana, a pior seleção do mundo, aquela que no dia 11 de abril de 2001,  perdeu de 31 a 0 pra Austrália.

Gostaria de ver na copa países que nunca foram: Líbano, Kuwait, Cuba, Barbados, Vietnã, países assim.

Quanto ao Brasil, ele fica em dúvida. Jurava nunca mais vestir a camisa amarela e sair por aí desde que os bolsonaristas se apoderam dela. Mas como Lula venceu as eleições, tem pensado duas vezes.

A dúvida dele é como torcer pelo Brasil e contra Neymar, pelo conjunto da obra.

O SOL DE SEXTA-FEIRA

O nome de Haddad está saindo do forno

O golaço de Richarlison

A história se repete

Um bom começo

Vestiram uma camisa amarela e saíram por aí

Que novela!

Gol de craque

Já que o governo Bolsonaro acabou…

PARA LER:

https://noticias.uol.com.br/colunas/balaio-do-kotscho/2022/11/24/multa-de-r-229-milhoes-saiu-barato-para-os-golpistas-do-terceiro-turno.htm

O alemão Die Zenit sugere, na primeira página, um fim de ano mais calmo

Merecido!

Como interpretar esta propaganda que saiu na edição de ontem da Folha de S.Paulo, em página inteira?

 

 

O SOL DE QUARTA-FEIRA

A picuinha da Folha contra o PT é fato

Alá, meu bom Alá!

Leandro Assis e Triscila Oliveira na página A2

Erasmo na foto em destaque na primeira página

O adeus a um outro gigante

O governo eleito em exercício

Erasmo na primeira página

O can-can francês e o tango argentino

Querido Pablo!

O governo de fato

Erasmo na primeira página do Estadão

O livro da Nobel que estará na Flip

Uma bela revista francesa

Na Folha

O último disco de Erasmo Carlos é só love

 

 

O SOL DE TERÇA-FEIRA

A síndrome do Valor Econômico toma conta da Folha

Um dia de protestos no Qatar

Um minuto de silêncio dos iranianos

A tragédia na Indonésia

Não é do peru?

A síndrome do Valor Econômico também em O Globo

Palco de protestos

Richarlison não gostou do Bild chamar Neymar de babaca

Grandes Notícias Pequenas Chamadas

Raspando o tacho

Alternativas tucanas

A capa da New Yorker esta semana é de Birgit Schössow

Na Folha

O SOL DE SEGUNDA-FEIRA

O número 1!

Enfim, uma luz no fim do túnel iluminou os menos favorecidos

Repare só! Nenhuma mulher.

Uma mulher que entrou para a História

Todos nós temíamos

João Montanaro na página A2

Um brasileiro comandando o BID

O fantasminha da ópera

A preocupação com a educação está voltando

Abertura de Copa é sempre um espetáculo

A pose é a de um time de futebol de salão, três de pé com peito estufado e uma dupla sentada na frente.

É fácil ver as mudanças que os mais de quarenta anos trouxeram nos cabelos, nas cinturas, nos olhares. Porém, um detalhe, talvez sem importância, cutuca minha memória. Um deles está de sandália havaiana. Eu conheço aquele pé. Aliás, conheço todos os pés da foto.

Por causa do futebol, ou porque brincávamos descalços, ou porque estávamos sempre na praia, ou por outro motivo que não vou saber explicar, eu reconheceria qualquer um dos meus cinco amigos sessentões por seus pés. O retrato que vejo chega por meu irmão e mostra o grupo num churrasco carioca. Um encontro anual do nosso time de futebol, que durante uma década nos unia nas tardes de domingo. Era aquele jogo no campo de terra, na Barra da Tijuca, o compromisso mais importante da semana, pelo menos da minha.

A gente mesmo organizava os jogos. A bola Drible, de couro branco, vinha no ponto, nem cheia demais que ficasse dura, ou murcha que não rolasse macia. Se chuva ou vento apagavam as linhas de cal, refazíamos a marcação. A rede fixávamos nas traves e prendíamos ao chão com paus e pedras. O gol ganha vibração quando a rede estufa, murmurando um “chuá”. E naqueles duelos, o placar podia passar de 10 x 10.

Se surgia um imprevisto desfalque lá íamos em busca de um reserva, até festa de aniversário interrompemos. Para apitar chamávamos o Argentino, o sorveteiro do Fazenda Clube Marapendi, com seu inseparável relógio a marcar 40 minutos pra cada tempo, sem acréscimos. À sombra de eucaliptos, nossa torcida miúda e fiel: seu Orlando, Valdir e Edgar. Nos momentos de sufoco, um deles palpitava, já que nunca tivemos técnico.

As camisas verde e branco, com largas listras verticais e números pretos, comprávamos com a vaquinha apurada na vizinhança. Conga, Ki-chute ou o pé descalço completavam o uniforme.

Na foto, os cinco rostos me relembram dos dez pés amigos e seus cinquenta dedos.

Fred, xerife da zaga, era dono de arcos altos e bem desenhados. Fosse o pé uma ponte, como a Rio Niterói, ali seria o vão central, passagem de barcas e transatlânticos. Como num encaixe da sola côncava, o peito convexo e largo. Seria esse o segredo do petardo de nosso batedor de faltas? Fred se orgulhava da casca grossa do calcanhar, capaz de apagar pontas de cigarro, sem prejuízo à áspera carapaça. O pé, de dedos pequenos e unhas bem cortadas por dona Santinha, não era comprido. Fred calçava 41.

Sérgio Calá também nunca sofreu com pé chato e batia bem com os dois. Quando ainda não tínhamos barba, os pés dele já eram peludos. Dois tufos. Um, mais volumoso, no peito do pé, o outro no dedão. Pés magros, ótimos para controlar a pelota e cobrar escanteios. Os dedos finos tinham um certo molejo e ele dobrava a parte de cima, ali onde ficam as unhas, para fazer embaixadinhas. Conga azul, 38.

Orlando sofreu bullying pelos pés avantajados. Os dedões eram quase do tamanho de um limão e as unhas se espalhavam naquele latifúndio. Orlando deixava que crescessem, passando fácil do limite dos dedos. A gente implicava, “vai furar a bola”, “que chulé”. Ele, bom malandro, ria da implicância, enquanto as unhas cresciam livres. Orlando era titular da lateral direita e se a marcação apertava, despachava a bola para onde o nariz ou o dedo apontasse. Nosso 44 bico largo não inventava.

Recordo que o dedo maior do Carlinhos, ponta direita arisco e raçudo, era quase quadrado. Os outros quatro desciam como degraus bem medidos de uma escada. Carlinhos também viu os pelos do pé brotarem antes dos primeiros fios de bigode. Os tornozelos eram saltados, do mesmo jeito que a parte traseira do calcanhar. Esguio, nosso velocista não tinha gordura para esconder os ossos. Pra sapato ou tênis, 38 não sobrava nem faltava.

Os pés do Roberto empatavam com os do Fred e só perdiam em tamanho para os do Orlando. É que meu mano era o veterano do time. Não tinha mais o que crescer. Quando experimentávamos as emoções dos 15 ou 16 anos, ele já contava 19 ou 20. E aqueles pés, capazes de precisos lançamentos e cobranças milimétricas de falta, já aceleravam e controlavam a embreagem de um Corcel rebaixado com rodas cromadas. Roberto pouco usava o canhoto. Sobrecarregado, o direito sofria com unhas quebradas e encravadas. Antes dos jogos, nosso capitão preparava uma proteção de esparadrapo e a gente sentia de longe o cheiro da cânfora. Com duas meias para não machucar os dedos já abalados, ele usava 41 com palmilha. Até hoje cuida bem dos pés, que garantem pedaladas e caminhadas sem tropeços.

Por último, conto dos pés de quem não saiu na foto. Os meus, que ganharam veias mais grossas e salientes. Em compensação os poucos pelos da juventude se foram, surgiram também rugas, escondidas na lateral externa. O direito permanece meio centímetro menor que o esquerdo. Meu pai – que sofria com calos e unhas de pedra – dizia que era “defeito de fabricação”. Não reclamo do fabricante e tampouco dos pés, que até hoje me sustentam, mesmo quando passo dos limites de peso, exaustão ou outros. No entanto, se recebesse a visita de um Gênio, aquele da lâmpada mágica, pediria uma sutil mudança. Meu dedão cresceu menos que o segundo dedo, aquele mais fino. A desproporção entre o gorducho e o espigão é bem feiosa. E então, seu Gênio, seria possível pelo menos igualar, perguntaria.

Na infância, ki chute número 34, quis entender porque meu pé era diferente. Minha avó, que sabia de tudo e tinha joanete, me respondeu, depois de esfoliar o calcanhar com pedra pome e calçar sua sandália de verniz.

– Ele nasceu assim por que sua mulher vai mandar em você.

Como disse, vovó sabia de tudo.

*Dedico essa crônica aos outros craques-peladeiros do Verde e Branco com seus habilidosos pés e inesquecíveis apelidos: Tuti, Magú, Suburão, Caldeira, Fusca, Bitola, Coronel e Tubarão.

**Este texto não reflete, necessariamente, a opinião da Fórum