BACURAU

A gente vai se embrenhando e se embrenhando por este estado, comendo pó, cuspindo tijolo, fotografando ruínas, na certeza de que, de repente, chegaremos a Bacurau. Tudo indica. Não encontramos uma alma viva pelo caminho, animais apenas bois, jegues e cabras, enquanto percorremos quilômetros e quilômetros de incerteza. Minto. Encontramos a Carmem que vem até a cerca de sua casa amarela e nos  aponta:

-Este é um pé de caju!

-Este é de algodão.

-Aquele é um pé de azeitona.

-Aquele mais longe lá é de seriguela.

Os mandacarus fuloram aqui na seca, queira Deus que que seja sinal de chuva no sertão. A aparência de um faroeste caboclo desaparece nas curvas da RN-310 quando eu tento esquecer o amor que tenho por São Paulo. Lá longe, a beleza do mar, o sossego das ondas vão desconstruindo as cenas do filme que vimos um dia. Se for, vá na paz! E vamos caminhando na paz, e acabamos chegamos aqui sem nenhuma, nenhuma notícia mesmo. Se alguém caiu, se alguma medida provisória foi aprovada, se o preço da gasolina subiu, se uma bala perdida matou mais um preto numa comunidade do Rio, não estamos sabendo. No meio do caminho, avistamos um acampamento do MST, instalado ali desde 2010. A bandeira tremula no meio do terreno porque o vento é forte. Passamos por Touros, onde o Brasil nasceu, Caraúbas, Parazinho, alguns vilarejos sem nome próprio, até chegar a Galinhos, num barco que enfrentou ondas grandes nessa época do ano. Navegar foi preciso até chegar aqui e colocar novamente os pés na Terra Brasilis, O barco, meu coração quase não aguentou tanta tormenta. Como é viver aqui? Um cachorro quente de sol nos recepciona dormindo no meio da passarela, tranquilão. Como é nascer aqui e passar todos os dias neste lugar? A vizinha, esticada numa rede, conversa com o marido, esticado em outra, no alpendre da casa colorida de laranja e verde. Falam alto, brigando com o som da televisão  de tela plana, instalada estrategicamente na sala. Ela fala alto e pergunta provavelmente para os seus botões:

-Que diacho investigam tanto esse avião…

E o marido, que acompanha sempre o Repórter Esso de perto, explica:

-Se a culpa for de avião, é a companhia quem vai pagar.

-Se a culpa for dos fios, é a companhia de eletricidade quem vai pagar.

-Se a culpa for do aeroporto, é a ANAC quem vai pagar.

E a conversa encerra. Tenho dito! A lua nova ilumina o vilarejo, o silêncio vai se espalhando e tomando conta de tudo. O farol pisca de tempos em tempos lá longe, bem longe. Os cachorros deitados  no meio da rua vão se acomodando para dormir por ali mesmo, despreocupados com o trânsito que não tem. A maré subiu, amanhã baixa. Se viemos, se chegamos até aqui, foi na paz.

Alberto Villas/texto e fotos

 

 

 

 

 

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