O SOL DE DOMINGO

De quatro em quatro anos, sempre que começa a Copa do Mundo, a gente vai deixando muita coisa de lado. O cotidiano metódico vai pras cucuias, dando lugar aos jogos de futebol. Não interessa se é França versus Inglaterra ou Arábia Saudita contra o Qatar, não interessa se é às sete da manhã, uma ou quatro da tarde. Boletos vão ficando pra trás sem pagar, o almoço às vezes é improvisado, prato no colo, copo d’água no chão.

O clima vai crescendo, pegando fogo graças a televisão. Os anúncios temáticos tomam conta de todos os breaks e passamos a conviver com cinquenta tons de verde e amarelo. Desde 2002, ouvimos muito falar de hexa. A palavra ganha os muros das cidades, as conversas dos botequins, das firmas.

Rumo ao hexa!

O brasileiro se entusiasma, compra uma camisa amarela na 25 de Março porque ninguém é doido de pagar os olhos da cara por uma oficial. Os supermercados dispõem caixas de cerveja bem na entrada para lembrar que tem jogo do Brasil. Bandeiras nacionais são dependuradas em todos os lugares, nas janelas dos prédios, nos postos de gasolina, no comércio em geral, nos automóveis e nas motocicletas.

Tabela de cartolina já não existem mais. Online, os brasileiros conferem os adversários, os dias da semana, o horário, os resultados, os próximos jogos, se a firma vai liberar os funcionários ou não.

O primeiro jogo  chega e o Brasil passa razoavelmente com facilidade. Dois a zero, todo mundo sente uma certa firmeza. Vem o segundo, sempre mais duro, um a zero meio no sufoco. Mas o que importa é que ganhou.Classificado, o Brasil vai pro terceiro jogo e perde. Oh! Mas é desculpado porque o time era o reserva e a seleção mesmo já estava classificada.

Aí a coisa aperta um pouco, é quando a seleção relaxada e seguro, enfia quatro no adversário e liquida a fatura, como dizem os locutores. O próximo jogo também não parece ser muito difícil.

Fogos, vuvuzelas, buzinas e gritos de vai, Brasil!

O incentivo na televisão cresce e já se fala que falta pouco pro Brasil colocar a mão no caneco. Enfim, rumo ao hexa!

Os times entram em campo. O adversário confessa, numa coletiva, que o Brasil é melhor e lado, o favorito. Um a zero pro Brasil! Neymar! Está quase acabando e, de repente, um a um, prorrogação, pênaltis.

Silêncio sepulcral no país do futebol!

Ninguém acredita que perdemos, Mané!

Quem tinha vinte, vinte poucos anos no início dos anos 1970, seguramente sonhou. Sonhou com uma vida diferente de como ela era. Sem dinheiro no bolso, sem patrão, sem consumo, sem estresse. Sonhou em viver tipo passarinho solto, um pardal.

Havia a possibilidade de ficar na cidade grande, deixar a casa dos pais, ir morar numa casinha pequenina onde o amor nasceu. Apenas um tatame no chão, um incenso aceso, livros de Carlos Castaneda, um pôster de Che Guevara na parede e nada mais.

Ah, e comida macrobiótica!

A outra possibilidade era pegar a estrada com destino a felicidade. Foi nessa vibe que o cronista foi parar em Arembepe, litoral norte da Bahia, o porto seguro do que chamavam de maluquice, mais tarde porraloquice.

Foi de carona, claro, o transporte mais anticapitalista do momento. Viajou em carrocerias de caminhões Fenemê, no porta mala de Veraneios, em fuscas envenenados, todo tipo de veículo motorizado. Caminhou também muito a pé, fazendo sinal de positivo com as mãos e vendo os automóveis em disparada.

Caminhou, penou, mas lá chegou. Em Arempebe! A vila de pescadores era coalhada de coqueiros, palhoças e barracas improvisadas. Ali estava vivendo toda aquela pequena multidão inconformada com o mundo, querendo mudá-lo, transformá-lo numa coisa melhor.

E olha que não havia o mundo em que um celular custa 20 mil, um tênis Nike dois mil e um boné do Neymar, mil e novecentos. 

O cronista foi por curiosidade, como foi um dia parar na praça Dam, em Amsterdam e na comunidade de Christiania, no centro de Copenhague.

Não, ele não chegou a Woodstock, nem mesmo ao Festival de Saquarema.

Ele gostou de Arembepe. Gostou porque viu ali uma vida muito diferente da que levava, trabalhando num laboratório de defesa vegetal, observando cochonilhas e pulgões pela lente de um grande microscópio.

Tinha professor de yoga, observador de estrelas, estudiosos de disco voadores, poetas, seresteiros, namorados. Tinha especialistas em beat generation, dançarinos, filósofos, tinha de tudo.

Foi lá que viu, pela primeira e única vez, Erasmo Carlos. Ele estava numa dessas barracas familiares, que dá pra ficar de pé dentro delas. Bem equipado, ele se ocupava dos filhos, todos pequenos. O violão ficava dependurado do lado de fora da barraca.

Que diabos Erasmo Carlos estaria fazendo ali?

O cronista está debruçado num livro há vinte e quatro horas: Arembepe, aldeia do mundo, de Claudia Giudice, Luiz Afonso Costa e Sérgio Siqueira. O livro conta o sonho, a aventura e algumas histórias do movimento hippie.

O livro ainda não falou de Erasmo Carlos, mas o cronista estava pensando uma coisa. Creio que foi lá que ele escreveu os versos de uma canção que diz assim: Em frente ao coqueiro verde/Esperei uma eternidade/Já fumei um cigarro e meio/E Narinha não veio.

Verdade. Não me lembro de ter visto Narinha lá.

 

 

 

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