O SOL DE DOMINGO 08.01.23

No final dos anos 1960, Vinícius de Moraes e Tom Jobim, numa dessas noitadas de uísque e altos papos, compuseram uma canção chamada Janelas Abertas, um ícone da bossa-nova, que terminava assim:

Mas quero as janelas abrir                                                                                                                                   Para que o sol possa                                                                                                                                          Iluminar o nosso amor

Era uma época em que o barquinho ia, a tardinha caia e que bossa-nova era mesmo ser presidente desta terra descoberta por Cabral.

Alguns anos depois, no seu frio e melancólico exílio londrino, Caetano Veloso compôs Janelas Abertas Número 2, primeiramente gravado por sua irmã, Maria Bethânia, num tom bem bethaniano. Janelas Abertas Número 2 terminava assim:

Mas eu prefiro abrir as janelas                                                                                                                                   Pra que entrem todos os insetos

Esta semana, o Sol abriu as janelas, todas as janelas. As janelinhas pequeninas de alumínio dos blocos do BNH, os janelões de madeira maciça das fazendas de café, dos apartamentos das metrópoles, as janelas que dão pro Minhocão, das casas e sobradinhos que ainda resistem nas metrópoles.

Abrimos as janelas para que entre o ar puro da democracia, que voltou ao cartaz, ao hit parada, voltou para a lista das dez mais e em todos os cantos da nação.

Sentimos isso.

Sentimos que as pessoas estão mais animadas, já deixaram de lado as maluquices do passado do ex-presidente que fugiu do país. Não acordamos mais sobressaltados com as ignorâncias ditas num cercadinho, com o medo do nosso país virar uma grande ditadura, sombria, de chumbo, de burrice. Bolsonaro é uma página virada.

O ar puro está chegando para trazer o frescor da Amazônia, o canto uniforme dos povos indígenas, a lição dos professores, a matemática dos mestres de obra, o grito de carnaval, a campainha do teatro pedindo silêncio, anunciando que o espetáculo vai começar.

Esse ar puro, esperamos, vai trazer novos livros, novas canções, novos programas de televisão, vai trazer arroz com feijão para quem não tem, picanha na lage, litrão gelado. Vai trazer emprego, uma polícia menos racista e menos assassina, filmes novos, espetáculos como o do Chico cantando Que tal um samba? Esperamos. Estamos acreditando no presidente da República, que voltamos a ter.

Outro dia fiquei pensando se todas as pessoas do planeta Terra escrevessem um diário. A menina do caixa do supermercado, o filósofo, o bancário, o professor da USP, o médico, o meteorologista, o motorista de caminhão, todo mundo.

Eu sou um fanático por diários. Já li dezenas e dezenas. Os diários de Kafka, os diários de Emilio Renzi, o diário de Anne Frank, o diário confessional de Oswald de Andrade, os diários de Che Guevara, até perdi a conta. Só não me interessei por aqueles diários falsos de Hitler e o diário de um Banana.

Uns dizem que escrever diário é fazer uma espécie de personal terapia. Outros dizem que diários não valem nada. Alguns perguntam: a quem interessa o diário de um anônimo?

 

Há dias estou mergulhado na leitura de uma primeira leva dos diários escritos por Eunice Penna Kehl, a avó de Maria Rita, escritos entre 1935 e 1936.

Uma época em que as pessoas iam na cidade, isto é, no centro da cidade, comprar fazenda para fazer um vestido. Época em que as pessoas diziam estar enfaradas de comer arroz com feijão. Falava-se pinoia, chamava-se bonde de bond e coisa de cousa.

Eunice era mais que uma dona de casa que resolveu registrar o seu dia a dia, muitas vezes simplórios. Ela tinha sonhos, tristezas, alegrias, afazeres, tudo dentro de um dia.

Eunice perdeu o seu filho Victor Luiz ainda menino e carregou essa cruz dia após dias, toda vida. As idas ao cemitério, os sonhos, a saudade, a angustia, o vazio, o acompanhamento da feitura do busto do menino, tudo era registrado em cadernos e mais cadernos e depois passados a limpo.

Vou engolindo os dias, as semanas, os meses de Eunice, como se fossem meus. Os furúnculos, as dores, as injeções, a arrumação da casa, as idas ao cinema para assistir uma fita excepcional.

Era uma época sem senha, sem zap, sem waze, sem spotify, sem e-book, sem tik tok.

Desde o dia primeiro de janeiro de 1975 eu nunca deixei de escrever alguma coisa sobre o meu dia. Diria hoje que são segredos de liquidificador, se é que isso faz sentido.

Outro dia, espanando os armários do meu escritório, deparei com uma frase escrita no dia 17 de junho de 1977, no exilio em Paris.

Hoje uma cigana da Iugoslávia passou aqui no restaurante onde descasco batatas e cebolas e todo mundo ficou ouriçado. Eu perguntei a ela quantos filhos eu teria. Ela pegou a minha mão, recém casado pela primeira vez, e disse: quatro! Eu não tinha nenhum, hoje tenho o Julião, a Sara, a Maria Clara e a Marilia.  

Ah… esses diários!

[www.cartacapital.com.br]

 

 

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