O SOL DE DOMINGO 15.01.23

A imagem que guardamos do dia em que Dilma Rousseff foi reeleita, é aquela de Aécio Neves, mão na cintura, olhando um aparelho de TV que informava que a então presidenta havia ultrapassado o tucano na apuração dos votos. Atrás dele, Luciano Huck, que voou do Rio para Belo Horizonte, tinha um ar carregado de um triste horizonte. Mas as palavras que ficaram foi a do então senador Aluizio Nunes Ferreira: “Nós vamos sangrar a Dilma”. Ninguém havia engolido a derrota, como não engoliram até hoje.

Sangraram Dilma até que veio o impeachment, o golpe, e o Brasil deu no que deu.

Desde o dia primeiro de janeiro, vivemos um novo governo, um novo tempo, tempo de união e reconstrução, tipo hoje a festa é nossa, é de quem quiser. Mas o fantasma do sangrar ainda persiste, não mais na boca de Aluízio, nem dos olhares perdidos de Aécio e do incrível Huck.

É o fantasma do pós-bolsonarismo que nos atormenta. Quem viu o Jornal Nacional ontem à noite, deve ter percebido que nos primeiros quinze minutos do noticiário, só se falou de Bolsonaro.

Lula e sua equipe tem um compromisso com o Brasil, com o povo brasileiro, mas o governo não consegue engatar a marcha para seguir em frente. Já no dia da diplomação do presidente, fascistas mostraram suas caras tacando fogo na fogueira, incendiando ônibus e automóveis na capital federal, como se fosse o trailer de um filme de horror chamado 8 de Janeiro.

No domingo passado, chegamos ao ponto máximo. Com a destruição material dos Três Poderes, só se falou nisso durante toda a semana. Sim, nos emocionamos com os discursos de Silvio Almeida, de Sonia Guajajara, de Anielle Franco. Foi bonita a festa mas, na garganta, sentíamos o gosto amargo de ver as mulatas de Di Cavalcanti apunhaladas. 

Sim, está claro que o objetivo do vazio de Bolsonaro é sangrar, encher o saco, perturbar o governo Lula para que ele não tenha tempo nem de unir as pessoas, nem de reconstruir o país. De Orlando, para onde fugiu, o presidente posta um derradeiro grito contra as urnas eletrônicas e apaga. Até que um documento do golpe é encontrado escondido dentro do armário do seu ex-ministro Anderson Torres, hoje preso.

Não podemos continuar olhando pelo retrovisor. O Brasil precisa de duas frentes. Uma para apurar os crimes do governo Bolsonaro e outro para unir e reconstruir o país.

Sempre teve cachorro na casa dos meus pais. Primeiro foi Joli, depois Tupi e finalmente Pink. Cachorro comia de tudo por lá. Tudo que sobrava do almoço e do jantar. Comia arroz, feijão, angu, osso de frango, muxiba de contra-filé. Até macarronada aos domingos, Joli Tupi e Pink comiam.

Uma vez por ano, o meu pai levava o cachorro num Posto da Prefeitura para vacinar contra raiva. E era só.

Cachorros na casa dos meus pais viviam soltos no quintal e quando dava na telha deles, se enfiavam por debaixo do portão da garagem e alcançavam a rua. Circulavam pelo bairro, viravam latas, aprontavam das suas, mas voltavam. Sempre voltavam, isso quando não eram pegos pela carrocinha. Era um trabalhão resgatá-los.

Banho era no tanque, com água fria e umas esfregadas com sabão português. Isso, de tempos em tempos, quando estavam imundos, encardidos.

Joli e Tupi, me lembro bem, morreram atropelados. Pink, acredito que de velha. Eu estava morando a dez quilômetros de Belo Horizonte quando ela morreu, não sofri tanto.

Sofri muito foi no dia em que vi Tupi estendido numa mesa na lavanderia, o corpo já duro, os olhos abertos. Mas morto.

Tupi era o mais malandro de todos. Gostava de circular pelo bairro do Carmo e quando abríamos os olhos, aparecia uma meia dúzia de cachorrinhos com a cara dele, focinho dele. Tupi era marrom escuro, com sobrancelhas creme.

Tudo isso acima para chegar até a Negona.

Negona foi sendo adotada aos poucos por minha irmã. Ela circulava pelo condomínio em Três Marias, Minas Gerais e foi chegando aos poucos. Chegando, chegando e acabou ficando. Ali encontrou casa, comida e muito carinho.

Não tinha uma semana que não chegasse no meu zap, uma foto da Negona. Parecia que ela estava rindo  o tempo todo, com a língua pra fora e os olhinhos meio fechados.

No ano passado, ela teve oito filhotinhos, cada um mais fofo que o outro. Não morasse eu a uns 800 quilômetros de Três Marias, teria ido buscar um deles, o mais pretinho de todos.

Uma de minhas filhas tem uma vira-lata chamada Cher. A outra, tem a Shakira e corre uma piada interna de que eu queria uma fêmea de galgo só pra chamar de Lady Galga. Mas isso não tem nada a ver com a Negona.

Segunda-feira passava, passava pouco das oito horas da manhã quando piscou uma mensagem no celular:

Negona morreu atropelada!

Chorei muito quando criança vi a morte de Baleia, numa cena de Vidas Secas. Chorei também quando vi Tupi estirado em cima de uma mesa.

Não conhecia a Negona, apenas pelas fotos que chegavam toda semana. Meu plano era ir a Três Marias no inicio desse dois mil e vinte e três pra ver  a Negona de perto, pra ela conhecer o nosso Canela.

Fiquei sabendo mais tarde que ela foi onde nunca tinha ido antes, na rodovia perto do condomínio, onde os carros passam em alta velocidade.

Soube também que ela foi enterrada em silêncio, debaixo de uma árvore, perto de onde morreu.

Dia desses vou lá ver onde ela está.

[www.cartacapital.com.br

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