PLUCT PLACT ZUM

Imagine de repente a gente virar um drone, ultrapassar a janela, alcançar uma altura imune ao corona, observar a vida lá de cima. Sobrevoar São Paulo inteira, do Jardim Europa ao Jardim Ângela. Queria ir até Cataguases, sobrevoar a Praça Santa Rita. o campo do Flamenguinho, o Rio Pomba. Chegar a Belo Horizonte, observar a avenida do Contorno, as ruas simétricas dentro dela e o caos do lado de fora. Rio de Janeiro, a praia de Ipanema, a Praça Nossa Senhora da Paz, a Cena Muda, passar raspando nos braços abertos do Cristo sobre a Guanabara e chegar a Duque de Caxias. Queria sobrevoar São Miguel dos Milagres, o Mercado Ver o Peso de Belém do Pará, o Teatro Amazonas. Queria ir a Paris só pra ver se a Place des Voges já está florida, ver os meninos correndo no Jardin du Luxembourg, as verdejantes Tulherias, como dizem aqui. Queria sobrevoar os canais de Amsterdam, as plantações de tulipas, a estátuas vivas na Rambla de Barcelona, a Sagrada Família, o Holand Park de Londres, o design de Viena, as ruas de Abidjan onde as mulheres vendem sopa de pimenta, ver de perto as ruínas de Atenas, a Ponte Vecchio de Florença, o Mercado de Montevidéu, a beleza dos balões no céu da Capadócia, os cubanos dançando salsa nas praças públicas de Havana, queria sim chegar ao Museu da Memória em Santiago do Chile.  

A TERRA É CHATA

É não, ficou. Acho que desde quando a voz humana foi substituída por uma voz metálica fingindo ser gente, pedindo para esperarmos um minuto enquanto encontrava os nossos dados. Até por volta de dois mil e quinze depois de Cristo, acredito eu. Ficou chata quando começamos a gritar Fora Temer, quando começamos a postar #foratemer. Foi ficando cada dia mais chata, essa Terra. Cheguei a ficar rouco de tanto gritar, fui salvo por lascas de gengibre desidratado e o homem lá. Só largou o osso quando venceu a sua data de validade. Não suporto usar máscara, e olha que só coloco para receber as encomendas que chegam na minha porta, para lavar frutas e legumes, passar um pano com álcool nas embalagens dos mantimentos. Meus óculos embassam e a Terra, além de chata, fica fora de foco. Ligo a televisão, todos de máscara, pego os jornais, todos de máscara. E é no mundo inteiro. Nos países ricos, nos países pobres. Na Suécia, na Suíça, na Islândia e na Finlândia. No Zaire, no Quênia, no Burundi e no Havaí. Metade de dois mil e vinte já se foi e eu não vi. Contei mortos, contei infectados, contei curados. Procurei notícias de vacina na Recherche e na New Scientist. Vi a policia branca matando pretos e pardos, de João Pedro e Guilherme a George Floyd. Não posso mais fotografar as pessoas lendo nos ônibus, a vida lá fora pela janela quando o motorista para no ponto. Não posso mais escolher os limões com casca fina, os tomates mais durinhos, o abacaxi mais doce, a cebola mais graúda, a banana mais nanica. Vivo agora entre água e sabão, entre álcool gel e setenta, entre lives e luvas. Estou começando a levar a sério aquela velha canção do Raulzito: pare o mundo que eu quero descer.   

SEXTOU

Era assim. Inventaram recentemente a palavra sextou e quando chegava a sexta-feira, a gente sextava. Pensava naquela cervejinha gelada depois do trampo e enxergava pela frente um sábado inteiro, um domingo inteiro. Fazer o quê? Acordar mais tarde, ler com calma os jornais, fazer sacolão, nenhuma preocupação em fazer a cama, poderia ficar pra mais tarde. O café da manhã também era mais pensado, mais lento, porque era sábado. Um ovo quente, mexido ou frito mesmo. Sacolão feito, o almoço hoje poderia ser fora. Ficava pensando nos restaurantes com preços justos, escolhia um. Não importa se o Ritz, o Ráscal, o Modi ou Le Jazz. Tínhamos a tarde livre para passeio. Uma exposição no Moreira Sales, um pulo na Livraria da Vila, uma rede, um bom livro. Era sábado, pô! E ainda tinha um domingo inteiro pela frente. Domingo era dia abrir a porta e receber os amigos, muitos, do peito. O dia inteiro falando de jornalismo, de viagens, coisas sérias e bobagens. Sábado era sábado e domingo era domingo. Domingo era um dia sagrado: nunca aspirar a casa, nunca ligar a máquina de lavar roupas, nunca ver o Faustão. O fim de semana está chegando. Vou abrir as janelas pra que entrem todos os insetos. 

O SOL

A Polícia prende o Queiroz. Weintraub cai ou não cai? A mega-sena acumulou. 1.209 mortes em 24 horas. Joice com coronavirus. O novo ministro das Comunicações é a cara do SBT. O namorado de Sara Winter solta fogos e é preso. Caixa para mais uma parcela de 600 reais. Taxa de juros caiu. A bola volta a entrar em campo. Mais um morto na periferia. Mais um PM afastado. Mais um PM foragido. Está chovendo fake news. Morreu Paiakan. Julia Duailibi dá bom dia às seis horas da manhã, Aumenta o desemprego. É grande o número de pessoas nas ruas. Automedicação com corticoide pode diminuir imunidade e agravar Covid. Hoje tem live de Gil.  Aroeira. Copos corta taxa de juro. Alerj começa a discutir impeachment de Witzel. Cai a venda no comércio. Aumenta o número de desempregados. Sistema de saúde de Natal colapsou. Assassinatos continuam a crescer mesmo na quarentena. Empresas doam kit de alimentação. Veja como usar corretamente a máscara. Idosa de 101 recebe alta. Quem lê tanta notícia?   

TRILHAS

E cada qual no seu canto e em cada canto uma dor. Já ouvi isso antes na voz de um Chico menino ainda, tímido e desajeitado, ao lado de Nara, mais ainda. Havia banda e a banda passava cantando coisas de amor. Estou rodeado de trilhas sonoras para enfrentar dias, já são oitenta e sete, amanhã oitenta e oito. Tenho dúvidas se o oito é o infinito de pé ou se o infinito é o oito deitado.Tenho um milhão de amigos e nem me lembro mais do barulho do tin-tin dos copos de cerveja. Não me pergunte/Não me responda\Não me procure/E não se esconda/Não diga nada/Saiba de tudo/Fique calada/Me deixe mudo/Seja num canto/Seja num centro/Fique por fora/Fique por dentro. Tenho lido todas as reportagens sobre sonhos em tempo de corona.  Se quiser saber, sonhei que um cactus havia brotado no meu celular e quando ele tocou às seis horas em ponto, tive medo de meter a mão. Ainda bem que vi antes e não me estrepei. Era cactus, mas era vírus, era corona, era covid. Hoje soube que o verde tão lindo dos gramados campos de lá estão todos com círculos para que fique cada qual no seu canto na hora do picnic. Se a esperança não vem do mar, nem das antenas de TV, vem de onde? Das asas da Panair? Falam agora de corticoide, enquanto tomo o meu Puran 25. Continuo aqui armazenando pensamentos. Pra ser sincero, não vejo a hora de lhe dizer tudo aquilo que decorei.

TOM E SEMITOM

Queria eu ser que nem Tom Jobim, que sabia o nome de todos os passarim. Flora e fauna, de cor. Do baobá ao jacarandá, da jaguatirica ao tamanduá. Reconhecia o canto da juriti, o voo do urubu, as garras do carcará. No piano, dedilhava o pau, a pedra, o fim do caminho e quando não sabia o nome científico do tuiuiú, procurava num dicionário específico que ficava numa prateleira, perto da prateleira, junto com outros dezessete dicionários. Garanto que Tom Jobim não ia se importar com essa quarentena, ficar dentro de casa. Regar as roseiras, o abacateiro, o pé de maracujá. Ia se divertir com a lerdeza da tartaruga, com a malemolência do bicho preguiça, com o tico-tico comendo todo todo o meu fubá. Queria ser que nem Tom Jobim que pegava na fruteira uma goiaba e descrevia a etimologia da fruta, olhando pra ela, que nem Wikipédia: A palavra goiaba originou-se do termo aruaque para a fruta, guaiaba. Sabia que em francês é goyave e em inglês, guava. Via se tinha bichinho e engolia, explicando que a mosca da fruta coloca os seus ovos na casca e eles encubam dentro da fruta e viram bicho de goiaba. Tudo pra ele tinha explicação, se não fosse científica, popular. Tom Jobim ia sentir saudade de andar nas nuvens vendo um pedaço da asa do avião. Avistar Nova York, sentir saudade daquele cheesecake, não sei se de uma Coca-Cola estupidamente gelada. Acordei com um tom na cabeça e daqui da minha janela ouço as maritacas. Quisera eu pegar o primeiro avião, um ônibus, um trem. Quisera eu saber tocar um instrumento, um alaúde de corda palhetada, com braço trastejado que nem violão. Vai, minha tristeza/E diz a ela que sem ela não pode ser/Diz-lhe numa prece/Que ela regresse/Porque eu não posso mais sofrer. Nem que fosse pra dedilhar uma só canção. 

 

BOA VIAGEM

Voar pra onde? Para a ilha de Komodo pra ver os dragões? Pro deserto de D’Ad Dahna pra assistir o concurso de Miss Dromedário? Pegar o primeiro avião com destino a felicidade? Tomar uma Coca-Cola nas asas da Panair? Será que sou feliz, por isso estou aqui e quero voar nesse balão? Ou pluct plact zum, não vou a lugar nenhum? Como estarão os aeroportos? As pessoas estão voando pra onde?  Tem avião pousando? Os funcionários da Anac estão com a pistola nas mãos para tirar febre? Quanto está a temperatura lá fora? E na sua testa? Com quantos quilos de medo se faz um cidadão? Ainda distribuem goiabinha na Gol? E cream-cracker na Latam? As aeromoças ainda sorriem ou estão tristes como eu? Será que nunca mais vou ouvir dentro de alguns minutos pousaremos no Aeroporto Charles de Gaulle, dentro de alguns minutos pousaremos no Aeroporto Zumbi dos Palmares, em Maceió, dentro de alguns minutos pousaremos no aeroporto Internacional José Martin, em Havana? Será que o meu coração nunca mais vai bater forte com aqueles piiiim anunciando turbulência no meio do oceano, em plena madrugada? Será que nunca mais vou ouvir o clact do carimbo no passaporte e o policial me desejando bom dia? Será que nunca mais vou ouvir a mocinha pedindo para que eu tire o relógio, o cinto, metais e moedas? Será que nunca mais vou ouvir aquele choro aflito do bebê assim que a aeronave levanta voo? Será que nunca mais vou procurar na bolsa à frente do meu acento uma revista bacana falando de Firenze? Será que nunca mais vou ver aquele porquinho com um X no cardápio da Turkish Airlines ou aquele guardanapo de linho da SAS? Ando tão nostálgico que hoje acordei pensando naquele tucano cantando Varig, Varig, Varig!

PRIVILÉGIO

Quando a televisão anuncia o começo do fim da quarentena, o novo normal, eu pergunto para os meus botões: que quarentena? Que novo normal é esse que estão falando? Pelo que vejo nas imagens, o novo normal é o velho, com os camelôs nas calçadas esburacadas, poeira ao invés de asfalto, fome ao invés de comida no prato, seca ao invés de árvores, Cheetos ao invés de arroz com feijão. Os poucos que continuam dentro de casa protegidos são os mesmos desde o início. Muitos artistas idosos, talvez. Esses, não tenho notícia de que estão zambetando pelas ruas. Fernanda Montenegro e Gilberto Gil, por exemplo, recolhidos em verdejantes sítios, reconhecem o privilégio. Como eu, no home office. Publico notícias, escrevo dois livros ao mesmo tempo, leio, faço comida, cuido da horta na varanda, ouço música, arrumo prateleiras, higienizo frutas e legumes, passo álcool até no pacote de batata palha. Troco diariamente a água do beija-flor, coloco roupa na máquina, tiro, coloco louça na máquina, tiro. Gosto de sentir nas mãos, os talheres quentes, os copos, os pratos, as travessas, e limpo num pano de prato as mãos sujas do sangue das canções. Consciência do meu  privilégio. Lembro de uma letra simplória de Jorge Benjor, hoje com cara de protesto: Que coisa linda que é o meu amor/Por entre bancários, automóveis, ruas e avenidas/Milhões de buzinas tocando em harmonia sem cessar/Ela vem chegando de branco, meiga pura linda e muito tímida/Com a chuva molhando o seu corpo lindo/Que eu vou abraçar/E a gente no meio da rua do mundo/No meio da chuva, a girar, que maravilha/A girar, que maravilha/A girar. Sorte ter tanta música para ouvir. De preciso aprender a ser só a preciso aprender a só ser

 

 

CARAS

De repente eu me lembro da revista Caras, que nem sei mais se existe ainda. Talvez. Quase em todo número, uma celebridade abria sua casa para Caras. Eu gostava daquilo, não muito pela celebridade, mas pela casa. Curioso, um dia vi que Caetano Veloso guardava em cima de um móvel da sala de jantar, uma preciosidade que tenho aqui no meu cafofo. Duas caixas com todos os discos de Nara Leão. Todos mesmo: Manhã de Liberdade, Opinião, Coisas do Mundo, Garota de Ipanema, Romance Popular, Nasci para Bailar, Meus Anos Dourados, Meus Amigos são um Barato… Hoje, aqui trancafiado, vejo as casas de caras pela televisão. A orquídea amarela de Valdo Cruz, a miniatura da rainha da Inglaterra de FHC, o fusquinha do Fachin, o coelhinho de pelúcia do coordenador do Centro de Contingência do Coronavírus em São Paulo e os livros de todo mundo que, antes de gravar, se instala na frente de uma estante. Já decorei todos os títulos dos livros do Oriente Médio do Guga Chacra, onde Miriam Leitão guarda os cinco volumes da ditadura do Elio Gaspari, o cantinho onde está a História da Feiura, do Humberto Eco, na casa da Cecília Malan, o livro sobre os 50 anos do JN, meio tombado, na casa do Ernesto Paglia. Estou me especializando em lombadas de livros. Reconheço de longe um Dostoiévski, um Paulo Leminsky, um Caio Fernando Abreu, um Laurentino Gomes, um Roberto Bolaño, um Ricardo Piglia, um Gay Talese, umas notícias do planalto, uma verdade tropical, uma história à margem, o romance da minha vida, a noite do meu bem. Outro dia vi Thelonious Monk, Horace Silver, Billie Holiday, Duke Ellington, Charles Mingus e Louis Armstrong, juntinhos na casa da Monica Waldvogel. Nem ouvi o que ela estava falando, veio aquela vontade de ouvir jazz e comecei por Armstrong com What a Wonderful World. 

TU PEQUENINA

Nunca te vi, não sei que cor tem já que no Google são muitas. Como pode uma coisa tão bela ser tão cruel? Fecho as janelas para que não entre, não saio às ruas para que não trombe com você, lavo as mão como Poncio Pilatos para te afastar. Não consigo te captar no ar, sequer te enxergar indo embora no ralo da pia, acompanhando da água e do sabão. Minúsculo, invisível, entrou no avião, no navio e atravessou os sete mares. De Whuam à Juiz de Fora, num piscar de olhos. De Milão a Conceição do Mato Dentro, de Nova York a Santa Rita do Sapucaí. Da Suécia à República dos Camarões. Cobrimos boca e nariz para não te respirar, não te engolir. Nunca vi a imagem da gripe espanhola, mas a sua está estampada todos os dias na tela de fundo dos telejornais. Essa bolinha redonda cheia de espinhos aparece diariamente junto a números que vão só aumentando, que começou com um e já está em quarenta e um mil. Cruzes, covas você construiu. Choro, lamento, distância, incerteza, tristeza, revolta, mais um dia vai começar. 

 

A TECLA FODA-SE

Desafiando a ciência e a lógica, os brasileiros resolveram pisar na jaca e chutar o pau da barraca, enfrentando de peito aberto o tal do coronavírus. Vejo nas primeiras páginas dos três principais jornais do país a multidão que tomou conta das ruas, algumas pessoas carregadas de sacolas, de mãos dadas com crianças e máscaras no queixo. “Foda-se, esse vírus não vai me pegar”, devem estar pensando muitos deles, entre uma trombada e outra, entre um espirro e outro, entre uma urinada e outra em banheiros públicos imundos. Um dia, Francelino Pereira, que ninguém mais se lembra dele, perguntou espantado “que país é este?”. Mais tarde, Renato Russo levou a pergunta para as paradas de sucesso e hoje a pergunta deveria estar estampada em enormes outdoors pelas cidades brasileiras. Somente num futuro muito longínquo vamos talvez conseguir entender o que deu na cabeça dos brasileiros no ano de 2020. Se houver futuro. 

MAIOR E VACINADO

v

Tenho cicatrizes no braço de vacinas que tomei há mais de sessenta anos. Vacinas deixavam marcas para sempre. Poliomelite, sarampo, catapora, escarlatina. Tomávamos vacina na farmácia do Hormínio. Injeções que doíam muito, davam febre, a gente ficava derrubado, jururu, faltava no Colégio. Se forçar um pouco minha memória, ainda sinto o cheiro de éter naquele cubículo da Farmácia Nossa Senhora do Carmo, onde seringas ficavam dentro de uma bacia de alumínio cheia de água quente. Tinha pavor daquele ambiente. Tantos anos depois, estamos aqui sentados esperando um cientista em qualquer parte do mundo anunciar a vacina para o Covid-19. Estamos esperando um plantão do Jornal Nacional, uma edição extra da Lancet ou qualquer coisa assim. Aí poderemos sair de casa e correr numa livraria para comprar o livro de fotografias sobre o Mais Médicos do Araquem Alcântara, numa banca para comprar a Quatro cinco um de junho, na Fabrique comprar um pain aux raisins, no SuperVille comprar uma Fanta Grapefruit ou quaquer coisa assim. Tranquei a vida. A novidade aqui dentro é o disco novo do Frejat, minhas mudinhas de beterraba que germinaram na horta da varanda, o pão que acabou de sair do forno, o Ovomaltine que está no fim e a Julia Duailibi mostrando no telão o número 1.185. Mil cento e oitenta e cinco mortos nas últimas 24 horas. 

[ilustração Mike McQuade/NYTimes]

ANDANDO NAS NUVENS

Sonhar é bom por isso. De repente eu me encontro num balão mágico, onde o mundo fica mais divertido. Estava longe do vírus, por que não pensei nisso antes? Mas o gás acaba e eu tenho de voltar às pressas, cair na Capadócia procurando o verdadeiro Jorge rabiscado numa pequena igreja encravada na pedra. Combinei que amanhã o sonho irá mais longe, serei um astronauta libertado, onde minha vida me ultrapassa em qualquer rota que eu faça. Dar um grito no escuro, ser parceiro do futuro na reluzente galáxia. Quero ser, nem que seja Laica, ter uma vida de cachorro. Deve ter um jeito de acordar sem medo do corona. Minha mãe, eu vou pra lua, eu mais a minha mulher. Vamos fazer um ranchinho, tudo feito de sapê, minha mãe eu vou pra lua e seja o que Deus quiser. O que seria de mim no dia setenta e nove se não fossem as composições? Estaria aqui agora entre quatro paredes frias e um corredor. E no fim de cada ato, limparia no pano de prato, as mãos sujas do sangue das canções. 

 

 

AS QUATRO ESTAÇÕES

Este ano ainda não senti frio no corpo inteiro. No máximo, na mão e no antebraço quando abro a janela pro ar fresco entrar. Controlo a meteorologia pela Anne Lottermann e pelo digital do meu celular. São Paulo 17 graus, Belo Horizonte 16, Brasília 14, Florença 21, Paris 16, Rio 22, Vryses 29 e Yakutsky 23. São as cidades onde me interessa se faz frio ou calor, chove ou segue o seco. Me espanto com os 23 graus de Yakutsky, a cidade mais fria do mundo que, quando chega o Natal, os termômetros marcam 45 graus negativos. É verão em Yakutsky, tão longe daqui. Mais uma semana pela frente. Em cima da minha escrivaninha, o Guia Rápido para uma Vida Longa me ensinando a comer peixe três vezes por semana, a ter filhos, um cachorro, a prestar atenção à postura, a tomar uma aspirina por dia. Hoje é daqueles dias que preciso de, pelo menos, 34 horas para fazer tudo que preciso. Seis horas da manhã e ouço o ronco do motor lá fora. Desconfio que a quarentena acabou pra muitos. As pessoas usam máscaras no mundo inteiro. O mundo é pequeno pra caramba, tem alemão, italiano e italiana. Tem coreano, japonês e japonesa. Tem nego da Pérsia, tem nego da Prússia. Tem nego do Zâmbia, tem nego do Zaire. Já que tenho muita coisa pra fazer, gostaria de procrastinar lendo Machado em inglês, The Posthimous Memoirs of Brás Cubas, coqueluche em Nova York. Antes de começar o dia, aproveito o fio de sol e fico observando ele tirar o mofo do meu sapato.  

LÁ FORA

Abro a janela e não vejo uma alma sequer, um barulho que não seja o da maritaca na árvore que faz sombra aqui dentro, permitindo apenas alguns raios de sol, le premier bonheur du jour. Sei que haverá assaltos no domingo, ação, barulho de sirene, supermercados cheios, farmácias cheias, receitas falsas de cloroquina. Haverá reprise do Faustão, dramas no Fantástico, uma mulher chorando na tela da TV Globo, como no cinema mudo do Caetano. Os bares estão fechados, não haverá cenas de sangue, como na ronda de Paulo Vanzolini. Atualizando São São Paulo, são vinte e cinco milhões de habitantes de todo canto e nação, amando com todo ódio, odiando com tanto amor. Tom Zé se prepara para mais uma live, que não perco nunca. Nunca perdi um lance, um namorinho no portão no bairro da Floresta. Nós, por exemplo. Eu quero saber com quantos quilos de medo se faz uma tradição. É domingo no Cristo Redentor, no Vietnã e em Itapuã e tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo. 

PRETOS

Quando você for convidado pra subir no adro da Fundação Casa de Jorge Amado pra ver do alto a fila de soldados, quase todos pretos dando porrada na nuca de malandros pretos de ladrões mulatos e outros quase brancos tratados como pretos, pense em João Pedro. Enquanto morre um brasileiro por minuto, estamos discutindo as bobagens que fala Abraham Weintraub, falando do concurso de máscaras da Damares, de Ricardo Salles, estamos discutindo o toma lá dá cá do centrão, o abre não abre dos shopping centers, a novela ruim que a Globo reprisa, a quarentena de Annita. Não importa nada: nem o traço do sobrado, nem a lente do fantástico, nem o disco de Paul Simon, Ninguém, ninguém é cidadão. Se você for a festa do Pelô, e se você não for, pense no João Pedro, reze pelo João Pedro, reze pelo George Floyd também. 

[com referência a Haiti, de Caetano Veloso e Gilberto Gil]

 

 

RECUERDOS

Vai ficar na memória pessoas nas janelas batendo palmas, gritando obrigado, gracie, thank you, merci, gracias, dank para os bravos guerreiros da linha de frente. Vai ficar na memória os concertos solitários de violinistas anônimos, as máscaras do Corinthians, as mãos esfregando sabão uma na outra, a higienização das frutas e legumes, as imagens de macas saindo de ambulâncias, as centenas de covas nas primeiras páginas dos jornais. Vai ficar na memória o álcool gel, a lojinha que vende bolos em Pinheiros fechada, a multidão na periferia de São Luiz do Maranhão andando com máscara no queixo, o Mandetta dizendo uma coisa, o idiota dizendo outra, o Teich perdido como Travolta naquele meme, infectologistas na GloboNews, jornalistas em home office na frente de estantes de livros, palavras como assintomático, curva, pico, número de mortos, vacina, flexibilização, lockdown, informais, 600 reais, veio a óbito.Tudo isso vai ficar na memória se houver amanhã.    

FICAR EM CASA

A gente só ficava em casa quando o termômetro de mercúrio ameaçava registrar trinta e nove graus. Minha mãe pedia pra gente abrir a boca, colocar a língua pra fora e falar A. Ela examinava por alto e dava o veredito: “Tá inflamada!” Ela abria o estojo Johnson & Johnson de primeiros socorros, pegava um comprimido de Melhoral, dava um banho morno na gente, vestia o pijama e fazia uma sopinha. Ligava pro Doutor Aldo Casilo, que recomendava um remédio cor de rosa com gosto de chicletes que a gente tomava e começava a melhorar. A gente só ficava em casa quando, nas férias, chovia lá fora, sem parar. Brincávamos dentro de casa fazendo estradas imaginárias que saiam do quarto, pegavam o corredor, avançavam pela copa e chegavam à sala de visitas. A gente só ficava em casa de noite, quando o perigo chegava com a escuridão e menino não ia correr risco de topar na esquina com o homem do saco ou coisa parecida. A gente só ficava em casa quando organizávamos uma pelada no terreiro, quando resolvíamos lavar o pombal, na hora do Rin-Tin.Tin, quando minha mãe colocava a comida na mesa. A gente só ficava em casa quando, no vigésimo primeiro dia, os ovos começavam a rachar e os pintinhos colocavam o bico pra fora. Havia uma expectativa em saber quantos iriam eclodir. A gente só ficava em casa quando ouvia aquele menininho com uma vela na mão cantando já é hora de dormir, não espere a mamãe mandar. Minha mãe vinha e cobria a gente com o cobertor Parahyba e, cansados de guerra, pegávamos no sono na certeza de que amanhã seria um novo dia. 

PASSE BEM

Os jornais dão mil dicas para enfrentar o dia-a-dia da pandemia, levando em conta que todos estão dentro de casa, esperando a onda passar, a curva se estabilizar, o pesadelo ir pro espaço sideral. Fala-se em depressão, em aflição, em tédio mesmo. Ensinam yoga, ginástica, dança, pilates e meditação. Como não coloco os pés na rua há 72 dias, coloquei a cabeça no travesseiro pensando em tudo que tenho feito. Acordo sem despertador às seis horas da manhã e, viciado, leio os três principais jornais do país para alimentar o Diário de Notícias que escrevo no blog Nocaute. Ligo a televisão e dou bom dia à Julia Duailibi na GloboNews, minha companheira das primeiras horas da manhã, antes mesmo do dia amanhecer. Preparo a mesa de café, bem caprichada, isso faço há anos. Vejo e-mails, o UOL, espio o Face, tomo um capuccino. Vejo o que dá notícia no Nocaute, escrevo. No intervalo das horas, cuido da horta, leio a biografia de Van Gogh, coloco roupa na máquina, mergulho na revistaria e na biblioteca numa  pesquisa para o livro que estou escrevendo, isso sempre à noite. Escrevo o diário ilustrado da família, isso faço há 42 anos. Brinco com a Shakira, que está passando uns dias aqui. Ela acorda sempre animada, fazendo festa, se lixando pra pandemia. Ameaça latir quando a luz do hall acende. O meu dia não tem ordem. Lembro-me que tomo laranjada, abro as janelas pra entrar o sol, almoço uma comida sempre deliciosa preparada pela Margarida. Checo quem faz aniversário, ontem foi o Zuenir Ventura. Mandei os parabéns. Reviso páginas do meu livro. Pensando bem, tudo é muito organizado e caótico ao mesmo tempo. Lembro que terça é dia de crônica do Humberto Werneck, que recebo por e-mail. Me esqueci de ler o Antônio Prata no domingo, vou no balaio, acho a Folha de domingo e separo para ler depois do almoço. Mando mensagem de voz pra minha irmã, despacho uma foto da Shakira pra Marilia e pra Anita, lembro que tenho de depositar uma grana na conta do jornaleiro. Sinto dor nos braços de tanto higienizar laranjas, limões, tomates, abacates, caquis, papaias. Ouço música, o disco Só, da Adriana Calcanhoto, que entrou no Spotify. Quero ouvir Bahianas e a Cozinha Mineira, capa da revista Ela de domingo. É tudo ao mesmo tempo agora e a roupa pra passar que prometi pra hoje, ficou pra amanhã.

[ilustração/Obra de Sangram Majumdar] 

EU SEI QUE É JUNHO

Sim, Alceu, eu sei que é junho, o doido e gris seteiro, com seu capuz escuro e bolorento, as setas que passaram com o vento, zunindo pela noite, no terreiro. Maio ficou pra trás, não sei se deixou uma saudade doida, pequena, oculta, ou uma saudade de tudo. Pois é, Alceu, eu sei que é junho, esse relógio lento, esse punhal de lesma, esse ponteiro, esse morcego em volta do candeeiro, e o chumbo de um velho pensamento. Já guardei o calendário imantado com a imagem daquela senhora sentada lendo Il Manifesto num bar de Florença, observada por um pôster de Che Guevara na parede, e sobre a mesa uma garrafinha de San Pellegrino que, de longe, parece ser sabor figo. Hoje já dia primeiro e eu renovo minha paixão por todos os dias primeiro. Calma, Alceu, eu sei que é junho, o barro dessas horas, o berro desses céus, ai, de anti-auroras, e essas cisternas, sombra, cinza, sul. Maio não teve dias piores, dias melhores, dias mais tensos, dias propícios para o amor, dias favoráveis ao dinheiro. Maio passou aqui, não foi muito longe, sequer no hall do meu apartamento. O sol bateu na minha cara entre sete e sete e doze da manhã, na varanda que dá pra árvores repletas de maritacas em alvoroço. Eu tenho de ir, Alceu, e esses aquários fundos, cristalinos, onde vão se afogar mudos meninos, entre peixinhos de geléia azul.