O SOL DE DOMINGO

Nada mais propício para os dias de hoje, uma canção de Paulinho da Viola, lá dos anos mil novecentos e setenta, Sinal Fechado. Ela começa assim: Olá, como vai?/Eu vou indo e você, tudo bem?/Tudo bem eu vou indo correndo/Pegar meu lugar no futuro, e você?/Tudo bem, eu vou indo em busca/De um sono tranquilo, quem sabe.

Nunca antes na história deste país, tanta gente quis ver um mês passar, mas passar rapidamente, como se não tivesse manhã, tarde, noite, madrugada. As pessoas querem atropelar os dias, passar uns por cima dos outros, adiantar o relógio, passar a página da folhinha e chegar novembro.

Sinal Fechado é o contrário de um antigo bolero cantado por Adilson Ramos chamado O Relógio. Com aquele vozeirão, ele dizia: Por que não paras, relógio?

Eu gostaria de adiantar, ou ficar olhando para o cronômetro do meu celular, onde parece que o tempo anda mais rápido, os minutos vão passando mais depressa.

A agonia e a ansiedade estão no ar, convivendo conosco, lado a lado. Todas as pessoas que encontramos, seja lá onde for, no sacolão, na livraria, na farmácia, no ponto do ônibus, na academia, na esquina esperando o sinal fechado de Paulinho da Viola abrir, elas querem ver logo novembro chegar.

O Brasil vive um dos seus piores momentos. Como se não bastasse, ainda nos aparece uma figura deplorável como Damares Alves dizendo o que disse.

Chegamos ao dia dezesseis, quer dizer, passamos da metade do mês, agora só falta a outra metade. Uma metade que vai passar como tudo tende passar, como tudo tem de passar. Nunca cantarolamos tanto que apesar de você, amanhã vai ser outro dia.

Agora deixando as canções que eles fizeram pra nós de lado e vendo a ficha cair, sejamos francos. Queremos nos ver livre dessa pademia de barbaridades chamada Messias e que desde dois mil e dezoito nos assola.

Vamos virar a página no dia 30?

Até os dias estão confusos. Estamos na primavera, as ruas cobertas de flores de ipê roxo e amarelo. O tempo, só ficamos sabendo quando abrimos a janela e colocamos o braço do lado de fora. Essa é a nossa personal meteorologia. Tem dias que chove, tem dias de bate sol, para não dizer que abandonamos de vez o cancioneiro nacional.

Na televisão, os comentaristas discutem durante horas o momento atual. As pesquisas, os recortes, os gráficos, as pisadas de bola do presidente, as mentiras, muitas, umas atrás da outras. Você que chegou até aqui percebeu como está difícil até mesmo para quem vive deste ofício, escrever.

Voltamos domingo que vem, mais sete dias já terão passados.

Só quero saber do que pode dar certo, não tenho tempo a perder. Só quero saber do que pode dar certo.

Saudade de Torquato Neto!

Já fazia uma semana que estávamos em Tóquio, quando a minha filha do meio entrou bem cedo no quarto do hotel e disse:

– Hoje vamos comer a melhor omelete do mundo!

Além de filha do meio, ela virou nossa guia por avenidas, ruas, ruelas e becos da capital japonesa. Não me pergunte como, ela entendia direitinho aquela máquina cor de rosa do metrô, onde ela enfiava algumas moedas de yen e saia o ticket de embarque para cada um de nós quatro.

Coisa de gente jovem.

Sabia que ônibus tomar para ir ao templo Senso-ji, no bairro Asakusa, onde descer, como voltar. Tudo escrito em japonês, que ela não lê. Em Tóquio, muitas vezes é mais fácil entender japonês do que o inglês que falam.

 

– Quem disse que é a melhor omelete do mundo? Perguntei.,

E ela respondeu, na lata:

– Todo mundo!

Quando nos mostrou no mapa onde era o restaurante que servia a melhor omelete do mundo, assustamos. Era muito, muito longe, quase fronteira com a Coréia.

Mas a minha filha do meio já tinha, na cabeça, o itinerário. Primeiro a pé, depois metro, ônibus e finalmente mais uma boa caminhada a pé. O restaurante ficava na periferia de Tóquio, numa ruela bem escondida, mas segundo minha filha, era a melhor omelete do mundo.

Deu meio dia, lá fomos nós, mochila nas costas, abastecidas de água, quiabinhos desidratados, Kit Kat de wassab, Fanta sabor melão, essas coisas de japonês.

Mais ou menos uma hora depois, lá estávamos nós na porta do tal restaurante. Uma cortininha preta cobria a entrada, mas já acostumados com Tóquio, empurramos delicadamente para a esquerda e entramos.

Um charme, o restaurante.

Mas, ao mesmo tempo, uma pequena encrenca, porque ali ninguém falava outra língua a não ser o japonês. O cardápio também era em japonês e as fotos de paisagens na parede também era só Japão.

Poucas mesas baixinhas e almofadas para sentarmos. Ao nos acomodarmos, rindo muito e achando aquilo tudo uma grande aventura, percebemos que a mesa era, na verdade, uma chapa onde preparavam ali, ao vivo e em cores a tal omelete.

Não foi difícil entender que queríamos omelete para todos. Quando a garçonete deu as costas, fomos unânimes no comentário:

– Será que ela entendeu?

Sorte nossa que, para a bebida, no cardápio, havia a fotografia de uma garrafinha verde, linda, toda escrita em japoneses, que tudo indicava ser saquê. Ou seria água?

Arriscamos e pedimos uma garrafinha para cada um de nós. Era saquê, talvez o melhor do mundo.

Em poucos minutos, a garçonete chegou com uma enorme cesta de vime, cheia de verduras e legumes, alguns desconhecidos de nós. A outra garçonete trouxe uma outra cesta, esta cheia de ovos, muitos, uma granja.

Quando vimos – literalmente – a chapa foi ficando quente. Ela espalhou aqueles legumes com um pouco de shoyo e foi mexendo com duas espátulas, como se fosse uma malabarista. Aquilo foi tomando forma de recheio de omelete, quando ela entrou com os ovos batidos.

E em segundos, aquilo virou uma imensa omelete, farto, para cinco pessoas.

Enquanto isso, tomávamos o saquê e ríamos muito, claro.

A garrafinha verde linda, muito linda, e eu logo pensei com os meus botões. Vou levar

Não queria pedir porque, primeiro, não falava japonês e, segundo, porque acho que não iam me dar.

Então, assim que pedimos uma outra rodada de garrafinhas, uma foi direto e rapidinho par o fundo da minha mochila.

Comemos a melhor omelete do mundo, bebemos o melhor saquê do mundo e acabamos nos entendendo com a conta, que não foi tão cara assim.

Quando levantamos, o mundo rodava um pouco, mas mesmo assim encontramos a portinha de saída.

Na calçada, era só divertimento, quando, de repente, a cortininha preta mexeu e lá de dentro saiu um dos donos do restaurante, gesticulando para mim que, pessimista nato, traduzia como A garrafinha! A garrafinha!

Ela insistia, falando alguma coisa assim:

みんなで写真を撮りたい!

Pânico! Todos olharam pra mim, acusando-me de o maior vexame no Oriente em todos os tempos. Assim que tirei a mochila das costas e já ia abrindo o zíper para entregar a ele a garrafinha, ele me explicou melhor. Pegou o meu celular e disse:

Photo! Photo! Photo!

Sim, ele queria apenas fazer uma foto de uma família brasileira feliz da vida, na porta do seu restaurante.

E fez.

A prova está aí, ilustrando a crônica.

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